Paz Interior

Faz anos que eu moro no mesmo lugar, com as mesmas pessoas, frequentando lugares que não me interessam, ouvindo a música que não quero ouvir, ouvindo o que mereço e não mereço. Parece engraçado ver a desgraça dos outros enquanto afundamos na nossa, tão solitários, tão frágeis, tão diferentes. Não me lembro de mudar, apenas fui me transformando, enquanto um dia estava no ponto A fui me locomovendo lentamente, sofrendo e crescendo para o que os matemáticos chamam naqueles livros chatos e pouco didáticos de ponto B.

Não me lembro de ser uma pessoa muito racional, muito estudiosa, muito calada, ou de ser aquele ser intocável e intangível que os outros falam que era o que eu costumava ser. Não consigo me lembrar de todos meus acertos, mas meus erros se converteram em cicatrizes físicas, traumas na memoria ou em asco em deparar com algo que me faça recordar do acontecido.

Nunca fui uma pessoa boa em ser uma pessoa, não sei como agir certo e já até li alguns manuais, mas todos eram imprecisos e falaciosos, já orei, fiquei horas olhando para o telhado tentando achar algo que perdi em mim mesmo, ou quem sabe em algum lugar, mas de nada valeu.

Não sei mais me segurar, não consigo mais tentar ser gentil. Traumas, traumas e traumas, o que fiz da minha vida? Penso que vou repetir o mesmo dito a pouco enquanto estiver queimando no inferno caso realmente ele exista e sei que vou repetir o mesmo daqui um tempo. E o tempo, essa coisa que mal consigo entender, esse ser que abate tudo e todos. Fenômeno natural? Produto gerado a partir da percepção humana?

Para mim o tempo só foi inventado para o ser humano explicar por que as coisas acontecem, para colocar uma explicação definitiva para o porquê de tudo se transformar, para ficar tentando explicar tudo que no fim não tem a menor utilidade, pois independente dos dinossauros terem sido extintos a milhares de anos eu ainda não achei o que não sei que perdi, quando perdi e se um dia tive o que perdi.

Erros e argumentos poucos concretos a parte ainda estou estressado, mas estressado com oque especificamente? Eu não sei. Podia ser o fato de estar sobrecarregado ou não estar fazendo absolutamente nada de bom. Estou ficando doente. Doente de uma doença que eu mesmo inventei e ainda não achei uma cura.

O que eu fiz para mim, o que eu devo fazer? Deixar de me preocupar comigo, viver em comum acordo com todos, felizes bonsais que trabalham, se endividam, tomam atitudes muitas vezes sabendo das consequências para depois reclamarem no futuro, me pegar sem nada grandioso feito por mim mesmo daqui a dez anos e depois culpar o tempo? Não. Prefiro ser egoístas, afundar em mim mesmo, buscar minha felicidade, xingar e tratar mal quem gosta de mim se me atrapalharem por essa busca do incansável.

Preciso achar a minha paz interior. Vi tudo isso em um sonho e com o pouco que vi aprendi muito. Esse é o primeiro texto que escrevo depois de um jejum de muitos dias, acho que de alguns meses sem escrever nada, sem ler nada e sem estudar nada.

Peço perdão, sem encarar a face de quem eu machuquei durante esse tempo de instabilidade emocional e racional, mas hoje foi o dia em que tudo explodiu da forma mais discreta possível e fico feliz que desta vez não tenha feito muito estrago. Digo isso porque agora vejo que estou conseguindo resolver eu mesmo meus problemas, que realmente alcancei a maturidade e mais feliz ainda por saber que posso amar e ser amado. E quanto a minha paz interior? Creio que não vou achar,terei eu mesmo que a construir.